sábado, 17 de outubro de 2009

Grito...

Somos fruto de uma sociedade que obrigou o povo a pensar cada vez mais em si próprio. Jogaram-nos na arena da vida sem direito de viver, tendo que lutar entre nós mesmos para termos a mínima condição de sobrevivência - puro instinto animal. Escravizaram-nos a tal ponto de não nos restar tempo para pensar. E agora? Agora chamam-nos de selvagens e individualistas.

Tiraram-nos nossas famílias para trabalharem para eles até sugarem toda a sua energia. Pagaram muito mal por isso. Assim, as condições físicas, financeiras e culturais são muito precárias para dar-nos uma boa educação. E agora? Agora nossos pais são irresponsáveis e nós... mal educados.

Somos frutos de uma sociedade que não nos permitiu apreciar uma boa música, devido a, entre outras razões, não termos em nosso currículo este tipo de “conteúdo’’ e também pelo fato destas músicas estarem inacessíveis a nós por questões financeiras. E agora? Agora dizem que a nossa música é pobre e que não temos gosto musical.

Em nossa música cantamos nosso cotidiano. E agora? Agora chamam-nos de pervertidos e marginais.

Incutiram em nossas cabeças, por meio de seus “marketings”, diretos ou indiretos, que para sermos felizes temos que consumir. Assim, os melhores financeiramente entre nós, preferem trabalhar arduamente para comprar o celular e a TV de Plasma do que investir em uma boa educação.

Somos fruto de uma raiz mais indígena e afro do que européia, pois somos fruto dos que ficaram à margem naquela tal colônia... E até hoje ,como naquela época, nossa cultura é considerada menor. Nossas roupas são extravagantes, nossas danças são pervertidas, nossa religião é do mal... Mas os jesuítas não foram embora? - perguntam uns. Mas nossa constituição não nos proporciona igualdade e respeito? - perguntam outros. Vivemos sem guerra! - afirmam os menos atentos. E nós gritamos: nossa guerra é silenciosa e sofrida.

Dizem-nos que não temos tudo o que precisamos devido ao fato de sermos preguiçosos e não termos força de vontade. Esfregam em nossa cara as exceções para justificar suas afirmações. Dizem: ”Tem até aquele filho da empregada que fez medicina...”. E nós, que não temos quase nenhuma auto-estima, acreditamos que somos mesmo burros e preguiçosos eram considerados nossos irmãos índios e negros outrora.

Precisamos que nos tirem o peso desta culpa e nos ensinem que somos resultado de uma história e mais, que podemos ser autores da história do futuro. Precisamos que nos conscientizem que toda cultura tem seu valor, mas que precisamos ampliar ainda mais nossos gostos, nossas percepções, nossa linguagem, nossas possibilidades para termos a chance de nos tornarmos verdadeiros cidadãos.

A escola, então, seria nossa esperança.

Contudo, dizem que somos boçais, que apenas repetimos o que já está escrito nos livros e que não sabemos interpretar ou criar textos. Mas isso nos foi ensinado? A preocupação maior é com o cumprimento do programa, pois, afinal, precisamos passar naquele tal de vestibular e naqueles concursos que nem sabemos como nos inscrever, e também na seleção daquele emprego que, se a coisa continuar assim, nunca passaremos nem perto da seleção.

Precisamos memorizar sim, tudo e mais um pouco, mas precisamos que estas informações façam sentido para nós. Se não conseguirmos encontrar “links” sobre o mesmo assunto em nossas cabeças, a informação fica solta e some em pouco tempo...

Queremos prova sim, afinal temos que estar preparados para esse mundo aí fora, pois... vai que acabe o sistema de cotas! Mas queremos ir além dos completes e perguntas fechadas que por vezes tornam-se necessárias. Queremos aulas e provas que nos façam pensar!!!!

Ah! Mais uma coisa: por favor, nas reuniões de pais, não se limitem apenas a arrasar mais ainda com os meus pais (se eles puderem comparecer) com todas as minhas derrotas (há alguns que, apesar da vida corrida, ainda conseguem se dedicar), mas façam reuniões que também sejam instrutivas, com temas que possam favorecer para que se tornem melhores cidadãos, melhores pais...

Cara escola, sabemos que o peso da responsabilidade é desproporcional ao salário, no entanto, temos dois pedidos a fazer: não desistam e também não descontem em nós toda a injustiça que sofrem em sua profissão. Ao contrário, invista em nós para que possamos nos juntar a vocês nesta luta.

3 comentários:

  1. - aHmeeeey;;; muito bom mociinha! Congratulations*-*

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  2. Parabéns pelo texto, indefectível.
    Precisamos cultivar a inteligência!

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  3. Texto brilhante. É, infelizmente temos que seguir um sistema completamente insano. Um sistema que nos corrói a mente e o corpo, e por isso somos obrigados a fumar pelo menos um pouco do ópio, para podermos suportar. É, infelizmente somos escravos. Mas quem é o escravizador, o homem? Eu diria que não. Nós pobres seres humanos não temos controle de nada, nem de nós mesmos, somos incapazes de conviver contemporaneamente na nossa mente e no nosso corpo, a mente pensa uma coisa e o corpo pede outra. Vivemos dentro de nossas fantasias e desejos desde que o mundo é mundo. Todos nós estamos sozinhos aqui nesta terra, sem uma verdadeira resposta do porque estamos aqui. Não temos a escolha se queremos ou não nascer, e também não sabemos quando vamos morrer. E qual caminho o homem deve seguir, o do conhecimento, ou da ignorância alienada? No fundo no fundo não sabemos a resposta. Porque o conhecimento nos tira a paz e nos expulsa do paraíso, e a ignorância faz das pessoas robôs.

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